maio 04, 2009

Completa-me



“Pequenina (não tarda nada estamos nos 30 e ainda és a pequenina!):



Sei que querias estar aqui comigo, mas o teu estágio está primeiro e pensando bem, está quase no fim. As sessões do tratamento também já estão a acabar e vou-me sentindo cada vez melhor.



Queria-te aqui….o sofá está demasiado grande só para mim. O teu relógio ficou cá esquecido! Mas tens sempre que deixar cá qualquer coisa? (por favor continua assim! Assim haverá sempre a desculpa esfarrapada “tens que vir cá busca-lo” para depois ficares por aqui). Não digas a ninguém, mas tento (desesperadamente) todos os dias pôr o relógio, pode ser que o pulso fique mais fino de um dia para o outro e que sinta o teu “tic tac” a pulsar perto de mim.



Ainda há pouco falamos ao telefone…e parece que nunca chega.



Volta rápido pequenina, isto está tudo demasiado vazio.



Completa-me…”







“- Quando voltas?



- Faltam 4 semanas, parece que nunca mais. Mas passa-se alguma coisa? Tens-te sentido mal?! (adorava aquela preocupação constante que por vezes se tornava (muito) irritante. ) Se quiseres volto mais cedo!



-Nada disso, está tudo bem! E tenho sempre que alegrar o hospital com a minha presença…vai passar num instante! Já te contei que sou o mais bonito de lá?



- Sim…eu própria sou vitima desse seu charme completamente…. Como direi? Irresistível?



-Ora nem mais, minha senhora!”







Ao desligar, (ele) sorriu por dentro. Ia-lhe fazer uma surpresa e escrever-lhe um pouco todos os dias! Sabia perfeitamente que ela ia adorar.



Ao desligar ,(ela) esboçou um grande sorriso. Conseguia imaginar a cara dele quando ela lhe aparecesse à porta de casa, uma semana antes do previsto!







Por momentos a casa deixou de estar tão vazia e o cheiro a flores parecia ali estar.

maio 02, 2009

Certezas, ninguém as tem

Antes de lhe tirarem o tapete debaixo dos pés, nunca tinha pensado na possibilidade de o perder.
Pensava apenas que não queria desperdiçar aqueles dias, nunca se sabe o dia de amanhã ( que sentido fazia esta frase… ).
Tinham estado separados dois anos, e pouco (muito?) mudara… mas estava lá tudo. (Seria o mesmo?) Era tudo diferente e tão familiar ao mesmo tempo.
Os últimos meses tinham sido…diferentes, familiares(?). Era um “como dantes” , um bocadinho diferentes. Não se mostravam aos outros, as mãos soltavam-se à saída do elevador. Mas mesmo assim, não trocava nada daquilo.
Pouco tempo tinham passado em casa, apenas as já habituais pausas no sofá (três para um e meio?) os deixavam passar por lá. Havia sempre uma desculpa para lá ficar, lá não haviam olhares indiscretos ou encontros inesperados. Voltaram a cada canto ou lugar “esquecidos” por momentos, inspiraram cada memória em cada rua, em cada jardim, em cada banco. Fizeram mil e quinhentos almoços “pseudo saudáveis”, ela roubou-lhe o chocolate do crepe sempre que pôde e ele…ele guardou cada sorriso dela. Que saudades que tinha de a ver assim…
Queriam guardar aquilo para eles…ele sempre disse “guarda o melhor para ti”, e tencionava que assim fosse por muito tempo.

Tinham-lhes tirado o tapete debaixo dos pés e nem um nem outro sabiam como reagir. Não podiam ficar só por ali…. Ainda tinham tanto pela frente.
O que iria acontecer a seguir? Nem um nem outro eram peritos em esperas….

Certezas, ninguém as tem .

abril 26, 2009

E de repente, tiram-nos a eternidade.


Era já um hábito discreto ficar a vê-lo dormir, mas não desta maneira.
A cama não era a dele, não havia sofá sequer e aquele…aquele não era ele.
Nunca gostou de hospitais nem clínicas ou coisa parecida. O cheiro era o mesmo, mais ou menos disfarçado, ia dar ao mesmo : cheiro a hospital, a doente.

Porquê que não põem lençóis com cor? Sempre disseram que as cores ajudavam ! ( talvez assim não se notasse tanto que estava mais branco que a cal. )

O cabelo desgrenhado (mas isso, estava sempre!), os lábios gretados, sem sorriso ou brilho no rosto. Não, definitivamente não era ele.

Era já um hábito discreto ficar a vê-lo dormir, mas não desta maneira.

Porque é que nunca me disseste o que se passava contigo? , perguntava-se a ela mesma repetidamente. Sabia perfeitamente porquê. Ele nunca deu parte fraca, nunca gostou de doenças nem nunca foi daqueles que tomam vitamina C quando estão constipados. Estava doente, mas não queria que ela soubesse . Não queria preocupá-la, sabia perfeitamente que ela ia fazer uma busca intensiva para encontrar o Creme Milagroso. (para ela havia cremes para tudo, até para doenças sem cura. )

Para quê estragar estes dias que se tinham passado!? (mas afinal… o que era aquilo tudo?)

Sempre que saía de casa à pressa prendia o cabelo , segundo ela “assim ninguém repara que não me penteei! “

Ali estava ela a roer a ponta dos dedos, cabelo apanhado e olhar vago sobre qualquer coisa que parecia ser o Mp3 dele.

- Bom dia bonita! (saiu-lhe com voz mais fraca de sempre, mas era a única que lhe restava.)

(abraço de segurança e beijo na testa!)

- Ó, finalmente! Estava a ver que tinha de continuar a pensar sozinha o quanto este sítio é feio…

Queria-lhe perguntar porque é que nunca lhe tinha contado nada, mas sabia que não era a melhor altura. Na hora certa ele contar-lhe ia tudo, sempre fora assim…não era agora que ia mudar! (será?)

Sabia perfeitamente que ela estava roída por dentro à espera que lhe contasse alguma coisa, mas também sabia que ela não ia perguntar nada. Sempre conseguiram falar pelos olhos e nem o vazio ou o baço conseguiam impedir isso.

- Os médicos disseram que tenho de ir embora, já nem devia estar aqui mas insisti ficar até acordares…

Não queria nada que ela fosse embora, detestava hospitais ou coisas parecidas. Queria que ela ficasse ali com ele, pelo menos até adormecer… mas sabia que não podia, nem queria que ela o visse assim por muito tempo.

- Vai descansar…. Eu fico bem! Sou o mais giro do hospital, vou ter tratamento especial!

- Só és porque eu estou aqui! Então vou indo…mas amanhã de manhã estou cá antes de acordares.

Precisavam os dois do abraço de segurança, mas nem um nem outro tinham a força necessária.

Deu-lhe um beijo leve e foi embora antes que ele lhe visse as lágrimas que teimavam em sair com vontade própria.


“- Ó bonita… faz por ti o que nenhum plano elabora!”

Hoje o sofá estava mais frio, desconfortável e vazio do que nunca. Ia passar ali a noite…parecia estar mais próxima dele ali, do que em sua casa.

“Faz por ti o que nenhum plano elabora! “ Que quereria dizer ele com aquilo?

E de um momento para o outro….tiram-nos a eternidade.

abril 23, 2009

Sofá de Dois para Um e meio


Tinham passados dias. Ainda não o tinha visto desde então. (Teria sido do sumo d laranja? Ressaca não era certamente!)
Não o tinha visto, não teve notícias, nada.
Teriam voltado ao mesmo? Ou seria apenas uma semana de desencontros ? (assim esperava, não queria voltar àquele “pseudo-bem-estar fingido”!)
Ah…que falta lhe fazia! Sempre gostou daquela sensação de segurança que a envolvia quando estavam os dois, não queria perder aquilo por nada. Não outra vez! (será que alguma vez tinha recuperado?)
Não aguentava mais aquele impasse. O (outro) sofá, este de dois lugares para um e meio ,estava no sítio do costume. O caminho ainda era o mesmo, porque não tentar?
O sofá estava no mesmo sítio. (Que almofadas eram aquelas? Já não era do tempo dela!)
-Por aqui? (beijo discreto na bochecha)

- Sim, não me vês durante uma semana, estavas à espera de não me ver mais?

- Nada disso.

-Temos andado desencontrados….

-Um pouco.

- O que interessa é que cá estamos outra vez.

O sofá continuava confortável (como sempre).

- ‘ Tás com má cara, que se passa?

- Nada!

Desta vez foi ela quem deu o abraço de segurança, sabia bem trocar de vez em quando.
Ele acabou por adormecer e como sempre, ela ficou o tempo todo a vê-lo dormir.
Não queria perder aquele momento, sempre gostou de o fazer e queria grava-lo bem na memória. Quando voltaria a estar a seu lado a vê-lo dormir?

Ainda bem que ninguém tocou à porta e que o telemóvel estava em silêncio.
Quando acordou já era noite e ela já lá não estava.

“ – O teu mal era fome. Tens aí um pastel de carne cheio de gordura como gostas!

Até amanhã (: “